domingo, 27 de maio de 2012

Variações em volta de nós

(Man and woman/ Joan Miró)

Furada

eu, a tona
tu,  a toa
nós: canoa



Levada 

quase me leva
no bico
ou brinco que fico?



Papelão        

o eu lírico
passa
por isso
mesmo:
nós a esmo.


(Cris de Souza)

sábado, 28 de abril de 2012

Poema a quatro mãos

Marcantonio, Noturno, arte digital (com interferência tonal de Cris de Souza).


Curto interno


Na tomada de consciência
tomo experiência
em apagão

Se me choca o sentido
tateio o desconhecido
seguindo o fio

da interrogação.


(Cris de Souza & Marcantonio)

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Canto de fé cavalgada

(Pintura: Antonio Remo)


quando a lua me atiça
de labaredas e luar
riçando o olhar

a desfiar devoções
invocando dragões
deidades atávicas

que nenhuma gramática
é capaz de sonhar

empunho a lança
lanço-me extravios
em vias que porfio

feito guerreiro de luz
que pro silêncio
não dá as costas

salvo e são para Jorge
de Capadócia!


(Assis Freitas & Cris de Souza)

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Ilustração

(dedicado a Tuca Zamagna)
I.
face de tigre
a devorar
feito a outra
face de esfinge
de todo finge
se decifrar?
II.
face de esfinge
a decifrar
feito a outra
face de tigre
de todo finge
se devorar?

(Cris de Souza)

terça-feira, 10 de abril de 2012

Lira que sibila


I. 


disfarça-se
a voz
púrpura 

pura em fissuras
arvoradas 
entre versos

alheia à brancura 
de um gesto
impresso de olor


II.


lanho de flor
carnívora
onde víbora 

a língua
se ostenta
em oferenda

onde a presa
se emenda
aos fonemas

onde reina 
a armadilha 
destas sílabas:

sina!


(Cris de Souza & Joelma Bittencourt)




quarta-feira, 28 de março de 2012

Poemas de correr o risco

(Foto: Cris de Souza/ Sei de Cór)



Infundável

entre nós
o eu lírico
não afunda

refunda sim
os sete mares

por dois pares
de asas juntas!



Guarda
(sem licença poética)

a cada verso
uma rota

a cada rota
uma rima

na escolta




Pode ser senha

um ai
a mais

sobre
os sais

dobre
o silêncio
sem cais          



Respingos de cabeceira 


ave!
o poeta
a ver navios:

majestoso
mar 
de se caber

maltrapilho
rio
de se conter


(Cris de Souza)

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Canto dobrado para um quase carnaval

(Pintura: Giandomenico d'mola)




no meio de confetes e serpentinas
teu corpo vacilava uma valsa
alçava fantasias repentinas


eu vertia copos de fatalidades
dados ao brindes das veleidades
em embriaguez e descompasso


eras uma felicidade tão espontânea
que desconcertava a travessura do arlequim
nas dobras douradas de alecrim    


(Assis Freitas & Cris de Souza)

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Entre o risco e a isca



(Foto: Cris de Souza)


pula sete ondas 
donde as sombras
misturaram-se
às conchas do sol?


para ver os pés
no arrebol
derretendo areias
fincando as contas
no anzol?


cismo
como o azul
é corpo
do abismo?


(Cris de Souza & Dani Carrara)


quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Haicais em curso

(Foto: Denise Fernandes)


I.

entrelinhas de fuga
o  poeta
forja a curva?


II.

o eu lírico
é mais cínico
que todos nós!


III.

arma a palavra
feito cão de guarda
chuva


(Cris de Souza)


IV.

chuva que guarda
o cão anda a luz
lambe, pá, lavra


(Assis Freitas)


V.

Hai cai
como a chuva
em curso de rio...


(Dario Banas)


VI.

palavras de escorrer
em leito de lírios
diretas ao mar


(Celso Mendes)


VII.

flor em verdura
clorofila descompassa
espera o vinho


(Wilson Caritta)

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Lembrança de Lira


Gonçalo F.





ao teu silêncio:


luz que periga
na onda 
da página

clareira aberta
no mar 
da palavra

raios 
de um poema 
de verão

- dou esquecimentos 
plenos de sol.


(Cris de Souza & Dani Carrara)



*Parabéns, Mestre!

sábado, 31 de dezembro de 2011

Um poema de brinde...

Foto: Vera Marques

Perdi as contas
(dedicado aos amigos)



importa
a quantos
pés viajamos?


a velha vida
em pane
porta
o aéreo plano: 


para quedas         
por todo               
novo ano!




(Cris de Souza)

Aerolinhas arrojadas

decolam
das pistas
na palma da mão
para um novo ano
poético.



Destino seguro não há,
escala ou conexão,
mas se falhar o para-quedas
da emoção... Deixe estar!
Acione o reserva, a imaginação.







* Verdade que desejo a todos um dardejante dois mil e doze! Beijos e beijos.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Poemas sem papas na língua...


 (Magritte, Sheherazade)


No colo das águas cálidas



ouça: num dom
que não sei nomear
o mar
ao penetrar a ostra
pérola a mostra



Desde a primeira estação



plantei papoila
sem saber que era

sem saber quimera
fosse primavera

- ai, dar-te quem dera!



A presa tem pressa?


conjugo a cobiça
que eriça a serpente
na língua do ventre



Letra sem vergonha


sei o que é desejo
- diz o verso
é quando a rima
quer fazer sexo
com o leitor! 



(Cris de Souza)


quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Concerto(cantos noturnos para violinos)

(Foto:Pedro Olivença)




Vila Velha



falo de um tempo
onde a chuva marca
a vidraça escusa


e a noite é lida
na vila
por velha coruja








De longe vejo



nem passa perto

da minha alma

em desassosego,

chegar a ponto
de fingir a calma      

a que não chego.






Entre traços e traças


olho por olho,
força-me a retina;
dente por dente,
     fura-me a rotina;
passo por passo,
faço-me a revista;
folha por folha,
perco-me de vista.



(Cris de Souza)



(Ann Fontanella)

domingo, 13 de novembro de 2011

Haicais de cór e salteado


Verso em órbita

o poeta orbita
em torno da pauta
como um astronauta!



Na ponta da língua

bafo da onça 
pintada na língua                  
em ponta de lança   



Em peregrinação

caminham as tintas
tocando nas cítaras:   
lira peregrina



Crocodilagem

no lago do idílio
só lágrimas
de crocodilo?



Analogia de noite e dia

o silêncio recorda 
vogais das nossas
cordas vocais 


(Cris de Souza)


(janis joplin, down on me)

sábado, 5 de novembro de 2011

O Cerco

(Foto: Verônica Spnela)



 com o cuidado

das aranhas

teço tuas linhas

em minhas tramas



 (Cris de Souza)

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Trilogia num piscar de letras...


Poema do peito


Suspeitas da cena
Ao abrir a janela
Do poema                       

Vigias o verso
Que te acenas
Para dentro do peito?

- Parapeito de açucena!

(Não teima nem tema)




 Lira a la Bilac

     
     Ai do poeta     
desdizer
estrelas:

Via láctea
de letras!



Linha lendária


versus
pégasus

 

 (Cris de Souza)


(secos & molhados, fala)